➤ Escrito por Isabel Jennings
Seguir Deus soa entusiasmante quando imaginamos portas abertas, orações respondidas e sonhos a concretizarem-se. Mas e quando a obediência não conduz ao conforto? E quando a promessa te leva a um lugar que mais parece um poço do que um palácio?
Por vezes, o caminho por onde Deus nos conduz faz-nos sentir como se tivéssemos tomado a direção errada. Às vezes, dizer “sim” à Sua voz não parece uma promoção — parece uma prisão.

Deus nem sempre nos leva ao conforto. Por vezes, Ele leva-nos a lugares que nos esticam, nos testam e nos refinam — porque é aí que Ele molda o nosso caráter para o chamamento que está à nossa frente.
Se estás sentindo desconforto ou o oposto daquilo que Deus te prometeu, isso não significa necessariamente que não O ouviste bem. Pode, na verdade, significar que estás exatamente onde devias estar — no caminho para onde Deus quer levar-te.
O livro do Gênesis conta-nos a história de um jovem de 17 anos cujo percurso começou com um sonho profético que o levou diretamente a um poço. José era o filho de Raquel, a esposa preferida do seu pai, Jacó.
Durante anos, Raquel foi estéril, e a Bíblia diz que Jacó amava José mais do que a qualquer outro dos seus filhos porque este nascera na sua velhice. Jacó amava tanto José que, um dia, lhe ofereceu um presente muito especial — um manto de várias cores.
Alguns estudiosos acreditam que esse manto teria sido feito de um tecido raro, talvez seda. Tal presente era um luxo extravagante e impraticável para as atividades diárias de alguém que cuidava de rebanhos de ovelhas. O manto falava muito sobre o amor e o favor do seu pai. Os irmãos de José viram aquele manto e entenderam bem o que representava — e o odiaram por causa disso.
O que agravou ainda mais a relação entre os irmãos foi que José começou a ter sonhos e a compartilhá-los abertamente. Numa noite, José sonhou que estava num campo de espigas, e que os molhos de cereal dos seus irmãos se curvavam diante do seu. Ele teve um segundo sonho: o sol, a lua e as estrelas curvavam-se perante ele.
Todos entenderam o significado: toda a família de José, seu pai, sua mãe e seus irmãos, se prostrariam diante dele. Esses não eram sonhos aleatórios provocados por uma refeição pesada; foram vislumbres divinos de seu destino. José não inventou esses sonhos; foi Deus quem os plantou.
José provavelmente pensou que ouvir Deus significava que estava prestes a entrar na grandeza. O que ele não sabia era que estava prestes a cair num poço. Quando partilhou os seus sonhos, os irmãos não lhe fizeram uma festa — atiraram-no para um buraco e pensaram em matá-lo.
Os sonhos de José não vinham com um calendário nem com um mapa que mostrasse todas as paragens, desvios e obstáculos entre a visão e o cumprimento. Certamente não traziam uma etiqueta a dizer “Serás vendido como escravo primeiro”.
O caminho para um propósito nem sempre é feito com conforto.
Quase conseguimos ouvir José clamar a Deus do fundo do poço:
“Deus, não foste Tu que me deste este sonho? Não foste Tu que disseste que eu era escolhido e que as pessoas se curvariam diante de mim? Com é que estou neste buraco? Por que estou rodeado de terra e escuridão, e por que é que me sinto tão sozinho? Com vou sair disto? E se eu morrer aqui?”

Você já passou por isso? Você tinha tanta certeza de ter ouvido a voz de Deus — e a seguiu.
Deste um passo de fé, candidataste-te àquele emprego, começaste aquele ministério ou mudaste-te para uma nova cidade. Mas, em vez de entrares em favor, talvez tenhas entrado numa luta.
Pode ser desorientador quando a obediência leva à dor ou ao desconforto. É desanimador quando o seu “sim” a Deus te leva a um lugar que parece um beco sem saída ou um fracasso. Mas, só porque dói, só porque é difícil ou desconfortável, não significa que não faça parte do plano sagrado e do tempo de Deus.
O poço não foi prova de que José interpretou mal o sonho que Deus lhe dera. Não foi sinal de que estava no caminho errado. Foi o lugar onde Deus começou a preparar José para o palácio.
Os irmãos de José o venderam a uma caravana de mercadores e convenceram seu pai, Jacó, de que ele estava morto. Ninguém conseguiu salvá-lo, e ele acabou no Egito. Ele foi vendido como escravo para a casa de Potifar. Lá, José aprendeu a supervisionar o cultivo das plantações de Potifar no clima árido do Egito.
Ali, provou ser um servo fiel e foi nomeado administrador de toda a casa de Potifar. Tudo sob os cuidados de José prosperou. Ele podia estar na escravidão, mas estava aprendendo a administrar, liderar e servir. Esse não foi um período perdido — foi um período transformador, até que ele foi falsamente acusado, seu nome arruinado e ele foi jogado na prisão.

Posso imaginar José dizendo algo como:
“Rezei por libertação e pensei que talvez um dia pudesse negociar minha liberdade — mas não daqui. Servi a Deus fielmente, mesmo como escravo. Deus, será que o Senhor me vê? Pensei que o Senhor tivesse prometido que eu seria promovido. Ninguém acreditará na minha inocência. Morri aqui.”
O que acontece com os planos de Deus é que raramente seguem a linha reta que esperamos. José pensava que andava para trás, mas Deus estava a movê-lo para a frente — através da traição, da perda e da espera — até ao lugar onde salvaria uma nação. Deus não desperdiça nada, nem sequer a dor. Ele reutiliza a, refina-nos e prepara-nos para o que ainda não conseguimos ver.
Podes estar tentado a pensar: “Talvez não tenha ouvido bem, Deus. Talvez me tenha enganado.” Mas e se não te enganaste — e se estás apenas a meio da história?
O sonho de José não foi enterrado no poço.
Não se perdeu na casa de Potifar.
Não se calou na prisão.
E não morreu quando foi esquecido pelo copeiro.
Porque quando Deus dá um sonho — não importa quem tente enterrá-lo,
quão fundo seja o poço, ou quanto tempo dure a espera — aquilo que Deus planta não morre onde Ele ainda está a trabalhar.
A história de José estava apenas a começar a tornar-se interessante. O palco estava a ser preparado, e as personagens estavam a ser moldadas. Algumas das nossas épocas mais dolorosas são aquelas em que Deus faz o Seu trabalho mais profundo — não nas circunstâncias, mas no nosso caráter. É quando Ele arranca o coração de pedra e o substitui por um de carne.

1 Pedro 1:6-7 OL: “É caso para estarem bem alegres com isso, ainda que por algum tempo sofram provações diversas. Estas tribulações são apenas para provar a vossa fé, para mostrar que é forte e genuína. Está a ser testada como ouro que é purificado pelo fogo. Mas a vossa fé é muito mais preciosa do que o simples ouro. Por isso, se a vossa fé permanecer forte, depois de testada pelo fogo, resultará em louvor, glória e honra no dia da vinda de Jesus Cristo.”
O sonho de José era sobre liderança, mas Deus ensinou-lhe humildade.
O sonho de José era sobre influência, mas Deus ensinou-lhe integridade.
O sonho de José era sobre poder, mas Deus ensinou-lhe paciência.
Se Deus te desse a posição antes de moldar o teu caráter, não terias força para permanecer firme quando lá chegasses. José esperou anos entre o sonho e o seu cumprimento. Foram anos de espera, decepção e desvio, mas quando chegou o tempo certo, ele estava pronto — não apenas para governar uma nação, mas para reconciliar uma família.
E quando Deus cumpriu finalmente o sonho, e os seus irmãos se curvaram diante dele como segundo no comando do Egito, José não usou o poder para se vingar — reconheceu que Deus o tinha enviado à frente deles, para preservar não só a sua família, mas também o povo do Egito.
Por vezes, o sonho que Deus te dá não é apenas sobre o que vais fazer — é sobre quem te vais tornar no caminho até lá. Ouvir Deus não significa que estás a caminho de uma vida de luxo e facilidade, mas de propósito.
O propósito raramente vem envolto em conforto — vem, muitas vezes, envolto em incerteza, dor e até oposição. Mas o encorajamento na história de José é este: mesmo quando parecia estar longe do sonho, Deus estava com ele e a trabalhar.
A Bíblia diz mais do que uma vez: “E o Senhor estava com José.” (Gênesis 39:2, 21OL)
Deus estava com José no poço.
Estava com ele quando foi vendido à caravana.
Estava com ele na casa de Potífar.
Deus estava com ele quando foi acusado de atacar a mulher de Potífar.
Estava com ele na prisão.
Deus estava com ele quando o copeiro se esqueceu de falar dele ao Faraó.
E estava com ele quando foi chamado para interpretar os sonhos do Faraó.
Deus nunca o deixou — e também não te deixou a ti.

Podes sentir-te num poço, mas isso não significa que Deus te abandonou — significa que Ele te está preparando. “E tenho a certeza de que Deus, que começou essa boa obra na vossa vida, vai completá-la até ao momento em que Jesus Cristo voltar.” — Filipenses 1:6OL
Podes sentir-te esquecido, mas Ele não se esqueceu de ti nem por um momento. Está a usar as circunstâncias para te moldar à imagem de Cristo. “Pode uma mulher esquecer-se do seu menino e não ter amor pelo seu próprio filho? Mesmo que isso possa acontecer, eu, contudo, nunca me esquecerei de vocês!” — Isaías 49:15OL
Podes sentir-te rodeado pela oposição, mas Ele está a rodear-te pessoalmente. Está a usar essas situações para te mostrar que está a agir de formas que nunca imaginarias. “Não temam porque eu estou convosco! Não se espantem, porque eu sou o vosso Deus! Dar-vos-ei força e ajudar-vos-ei; hei de sustentar-vos com a força e a justiça da minha mão vitoriosa.” — Isaías 41:10OL
Se a sua obediência o levou a algo difícil, não presuma que você escolheu o caminho errado. Às vezes, os lugares mais difíceis são exatamente onde Deus quer que você esteja.
Quando o caminho de Deus não parecer progresso, lembra-te de José. Quando as promessas parecerem atrasadas, lembra-te de José. Lembra-te: atraso não significa negação.
Por isso, continua a confiar.
Continua a acreditar.
Continua a agarrar-te ao sonho.
Porque o mesmo Deus que te deu a palavra é o mesmo Deus que a cumprirá.



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